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| | 1 Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó. Era homem íntegro e reto, que temia a Deus e se desviava do mal. 2 Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. 3 Possuía ele sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas, tendo também muitíssima gente ao seu serviço; de modo que este homem era o maior de todos os do Oriente. 4 Iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs para comerem e beberem com eles. 5 E sucedia que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó e os santificava; e, levantando-se de madrugada, oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; pois dizia Jó: Talvez meus filhos tenham pecado, e blasfemado de Deus no seu coração. Assim o fazia Jó continuamente. 6 Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. 7 O Senhor perguntou a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela. 8 Disse o Senhor a Satanás: Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal? 9 Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura Jó teme a Deus debalde? 10 Não o tens protegido de todo lado a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? Tens abençoado a obra de suas mãos, e os seus bens se multiplicam na terra. 11 Mas estende agora a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua face! 12 Ao que disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está no teu poder; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor. 13 Certo dia, quando seus filhos e suas filhas comiam e bebiam vinho em casa do irmão mais velho, 14 veio um mensageiro a Jó e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pasciam junto a eles; 15 e deram sobre eles os sabeus, e os tomaram; mataram os moços ao fio da espada, e só eu escapei para trazer-te a nova. 16 Enquanto este ainda falava, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu e queimou as ovelhas e os moços, e os consumiu; e só eu escapei para trazer-te a nova. 17 Enquanto este ainda falava, veio outro e disse: Os caldeus, dividindo-se em três bandos, deram sobre os camelos e os tomaram; e mataram os moços ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova. 18 Enquanto este ainda falava, veio outro e disse: Teus filhos e tuas filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho; 19 e eis que sobrevindo um grande vento de além do deserto, deu nos quatro cantos da casa, e ela caiu sobre os mancebos, de sorte que morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova. 20 Então Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a sua cabeça e, lançando-se em terra, adorou; 21 e disse: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor. 22 Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
1 Chegou outra vez o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor; e veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o Senhor. 2 Então o Senhor perguntou a Satanás: Donde vens? Respondeu Satanás ao Senhor, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela. 3 Disse o Senhor a Satanás: Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal? Ele ainda retém a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa. 4 Então Satanás respondeu ao Senhor: Pele por pele! Tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. 5 Estende agora a mão, e toca-lhe nos ossos e na carne, e ele blasfemará de ti na tua face! 6 Disse, pois, o Senhor a Satanás: Eis que ele está no teu poder; somente poupa-lhe a vida. 7 Saiu, pois, Satanás da presença do Senhor, e feriu Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até o alto da cabeça. 8 E Jó, tomando um caco para com ele se raspar, sentou-se no meio da cinza. 9 Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua integridade? Blasfema de Deus, e morre. 10 Mas ele lhe disse: Como fala qualquer doida, assim falas tu; receberemos de Deus o bem, e não receberemos o mal? Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios. 11 Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo esse mal que lhe havia sucedido, vieram, cada um do seu lugar: Elifaz o temanita, Bildade o suíta e Zofar o naamatita; pois tinham combinado para virem condoer-se dele e consolá-lo. 12 E, levantando de longe os olhos e não o reconhecendo, choraram em alta voz; e, rasgando cada um o seu manto, lançaram pó para o ar sobre as suas cabeças. 13 E ficaram sentados com ele na terra sete dias e sete noites; e nenhum deles lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.
1 Depois disso abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia. 2 E Jó falou, dizendo: 3 Pereça o dia em que nasci, e a noite que se disse: Foi concebido um homem! 4 Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz. 5 Reclamem-no para si as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; espante-o tudo o que escurece o dia. 6 Quanto àquela noite, dela se apodere a escuridão; e não se regozije ela entre os dias do ano; e não entre no número dos meses. 7 Ah! que estéril seja aquela noite, e nela não entre voz de regozijo. 8 Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam os dias, que são peritos em suscitar o leviatã. 9 As estrelas da alva se lhe escureçam; espere ela em vão a luz, e não veja as pálpebras da manhã; 10 porquanto não fechou as portas do ventre de minha mãe, nem escondeu dos meus olhos a aflição. 11 Por que não morri ao nascer? por que não expirei ao vir à luz? 12 Por que me receberam os joelhos? e por que os seios, para que eu mamasse? 13 Pois agora eu estaria deitado e quieto; teria dormido e estaria em repouso, 14 com os reis e conselheiros da terra, que reedificavam ruínas para si, 15 ou com os príncipes que tinham ouro, que enchiam as suas casas de prata; 16 ou, como aborto oculto, eu não teria existido, como as crianças que nunca viram a luz. 17 Ali os ímpios cessam de perturbar; e ali repousam os cansados. 18 Ali os presos descansam juntos, e não ouvem a voz do exator. 19 O pequeno e o grande ali estão e o servo está livre de seu senhor. 20 Por que se concede luz ao aflito, e vida aos amargurados de alma; 21 que anelam pela morte sem que ela venha, e cavam em procura dela mais do que de tesouros escondidos; 22 que muito se regozijam e exultam, quando acham a sepultura? 23 Sim, por que se concede luz ao homem cujo caminho está escondido, e a quem Deus cercou de todos os lados? 24 Pois em lugar de meu pão vem o meu suspiro, e os meus gemidos se derramam como água. 25 Porque aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece. 26 Não tenho repouso, nem sossego, nem descanso; mas vem a perturbação.
1 Então respondeu Elifaz, o temanita, e disse: 2 Se alguém intentar falar-te, enfadarte-ás? Mas quem poderá conter as palavras? 3 Eis que tens ensinado a muitos, e tens fortalecido as mãos fracas. 4 As tuas palavras têm sustentado aos que cambaleavam, e os joelhos desfalecentes tens fortalecido. 5 Mas agora que se trata de ti, te enfadas; e, tocando-te a ti, te desanimas. 6 Porventura não está a tua confiança no teu temor de Deus, e a tua esperança na integridade dos teus caminhos? 7 Lembra-te agora disto: qual o inocente que jamais pereceu? E onde foram os retos destruídos? 8 Conforme tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam o mal segam o mesmo. 9 Pelo sopro de Deus perecem, e pela rajada da sua ira são consumidos. 10 Cessa o rugido do leão, e a voz do leão feroz; os dentes dos leõezinhos se quebram. 11 Perece o leão velho por falta de presa, e os filhotes da leoa andam dispersos. 12 Ora, uma palavra se me disse em segredo, e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela. 13 Entre pensamentos nascidos de visões noturnas, quando cai sobre os homens o sono profundo, 14 sobrevieram-me o espanto e o tremor, que fizeram estremecer todos os meus ossos. 15 Então um espírito passou por diante de mim; arrepiaram-se os cabelos do meu corpo. 16 Parou ele, mas não pude discernir a sua aparência; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, então ouvi uma voz que dizia: 17 Pode o homem mortal ser justo diante de Deus? Pode o varão ser puro diante do seu Criador? 18 Eis que Deus não confia nos seus servos, e até a seus anjos atribui loucura; 19 quanto mais aos que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e que são esmagados pela traça! 20 Entre a manhã e a tarde são destruídos; perecem para sempre sem que disso se faça caso. 21 Se dentro deles é arrancada a corda da sua tenda, porventura não morrem, e isso sem atingir a sabedoria?
1 Chama agora; há alguém que te responda; E a qual dentre os entes santos te dirigirás? 2 Pois a dor destrói o louco, e a inveja mata o tolo. 3 Bem vi eu o louco lançar raízes; mas logo amaldiçoei a sua habitação: 4 Seus filhos estão longe da segurança, e são pisados nas portas, e não há quem os livre. 5 A sua messe é devorada pelo faminto, que até dentre os espinhos a tira; e o laço abre as fauces para a fazenda deles. 6 Porque a aflição não procede do pó, nem a tribulação brota da terra; 7 mas o homem nasce para a tribulação, como as faíscas voam para cima. 8 Mas quanto a mim eu buscaria a Deus, e a Deus entregaria a minha causa; 9 o qual faz coisas grandes e inescrutáveis, maravilhas sem número. 10 Ele derrama a chuva sobre a terra, e envia águas sobre os campos. 11 Ele põe num lugar alto os abatidos; e os que choram são exaltados à segurança. 12 Ele frustra as maquinações dos astutos, de modo que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito. 13 Ele apanha os sábios na sua própria astúcia, e o conselho dos perversos se precipita. 14 Eles de dia encontram as trevas, e ao meio-dia andam às apalpadelas, como de noite. 15 Mas Deus livra o necessitado da espada da boca deles, e da mão do poderoso. 16 Assim há esperança para o pobre; e a iniqüidade tapa a boca. 17 Eis que bem-aventurado é o homem a quem Deus corrige; não desprezes, pois, a correção do Todo-Poderoso. 18 Pois ele faz a ferida, e ele mesmo a liga; ele fere, e as suas mãos curam. 19 Em seis angústias te livrará, e em sete o mal não te tocará. 20 Na fome te livrará da morte, e na guerra do poder da espada. 21 Do açoite da língua estarás abrigado, e não temerás a assolação, quando chegar. 22 Da assolação e da fome te rirás, e dos animais da terra não terás medo. 23 Pois até com as pedras do campo terás a tua aliança, e as feras do campo estarão em paz contigo. 24 Saberás que a tua tenda está em paz; visitarás o teu rebanho, e nada te faltará. 25 Também saberás que se multiplicará a tua descendência e a tua posteridade como a erva da terra. 26 Em boa velhice irás à sepultura, como se recolhe o feixe de trigo a seu tempo. 27 Eis que isso já o havemos inquirido, e assim o é; ouve-o, e conhece-o para teu bem.
1 Então Jó, respondendo, disse: 2 Oxalá de fato se pesasse a minha mágoa, e juntamente na balança se pusesse a minha calamidade! 3 Pois, na verdade, seria mais pesada do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido temerárias. 4 Porque as flechas do Todo-Poderoso se cravaram em mim, e o meu espírito suga o veneno delas; os terrores de Deus se arregimentam contra mim. 5 Zurrará o asno montês quando tiver erva? Ou mugirá o boi junto ao seu pasto?: 6 Pode se comer sem sal o que é insípido? Ou há gosto na clara do ovo? 7 Nessas coisas a minha alma recusa tocar, pois são para mim qual comida repugnante. 8 Quem dera que se cumprisse o meu rogo, e que Deus me desse o que anelo! 9 que fosse do agrado de Deus esmagar-me; que soltasse a sua mão, e me exterminasse! 10 Isto ainda seria a minha consolação, e exultaria na dor que não me poupa; porque não tenho negado as palavras do Santo. 11 Qual é a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para que me porte com paciência? 12 É a minha força a força da pedra? Ou é de bronze a minha carne? 13 Na verdade não há em mim socorro nenhum. Não me desamparou todo o auxílio eficaz? 14 Ao que desfalece devia o amigo mostrar compaixão; mesmo ao que abandona o temor do Todo-Poderoso. 15 Meus irmãos houveram-se aleivosamente, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros que passam, 16 os quais se turvam com o gelo, e neles se esconde a neve; 17 no tempo do calor vão minguando; e quando o calor vem, desaparecem do seu lugar. 18 As caravanas se desviam do seu curso; sobem ao deserto, e perecem. 19 As caravanas de Tema olham; os viandantes de Sabá por eles esperam. 20 Ficam envergonhados por terem confiado; e, chegando ali, se confundem. 21 Agora, pois, tais vos tornastes para mim; vedes a minha calamidade e temeis. 22 Acaso disse eu: Dai-me um presente? Ou: Fazei-me uma oferta de vossos bens? 23 Ou: Livrai-me das mãos do adversário? Ou: Resgatai-me das mãos dos opressores ? 24 Ensinai-me, e eu me calarei; e fazei-me entender em que errei. 25 Quão poderosas são as palavras da boa razão! Mas que é o que a vossa argüição reprova? 26 Acaso pretendeis reprovar palavras, embora sejam as razões do desesperado como vento? 27 Até quereis lançar sortes sobre o órfão, e fazer mercadoria do vosso amigo. 28 Agora, pois, por favor, olhai para, mim; porque de certo à vossa face não mentirei. 29 Mudai de parecer, peço-vos, não haja injustiça; sim, mudai de parecer, que a minha causa é justa. 30 Há iniqüidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar discernir coisas perversas?
1 Porventura não tem o homem duro serviço sobre a terra? E não são os seus dias como os do jornaleiro? 2 Como o escravo que suspira pela sombra, e como o jornaleiro que espera pela sua paga, 3 assim se me deram meses de escassez, e noites de aflição se me ordenaram. 4 Havendo-me deitado, digo: Quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me revolver na cama até a alva. 5 A minha carne se tem vestido de vermes e de torrões de pó; a minha pele endurece, e torna a rebentar-se. 6 Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão, e chegam ao fim sem esperança. 7 Lembra-te de que a minha vida é um sopro; os meus olhos não tornarão a ver o bem. 8 Os olhos dos que agora me vêem não me verão mais; os teus olhos estarão sobre mim, mas não serei mais. 9 Tal como a nuvem se desfaz e some, aquele que desce à sepultura nunca tornará a subir. 10 Nunca mais tornará à sua casa, nem o seu lugar o conhecerá mais. 11 Por isso não reprimirei a minha boca; falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amargura da minha alma. 12 Sou eu o mar, ou um monstro marinho, para que me ponhas uma guarda? 13 Quando digo: Confortar-me-á a minha cama, meu leito aliviará a minha queixa, 14 então me espantas com sonhos, e com visões me atemorizas; 15 de modo que eu escolheria antes a estrangulação, e a morte do que estes meus ossos. 16 A minha vida abomino; não quero viver para sempre; retira-te de mim, pois os meus dias são vaidade. 17 Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas sobre ele o teu pensamento, 18 e cada manhã o visites, e cada momento o proves? 19 Até quando não apartarás de mim a tua vista, nem me largarás, até que eu possa engolir a minha saliva? 20 Se peco, que te faço a ti, ó vigia dos homens? Por que me fizeste alvo dos teus dardos? Por que a mim mesmo me tornei pesado? 21 Por que me não perdoas a minha transgressão, e não tiras a minha iniqüidade? Pois agora me deitarei no pó; tu me buscarás, porém eu não serei mais.
1 Então respondeu Bildade, o suíta, dizendo: 2 Até quando falarás tais coisas, e até quando serão as palavras da tua boca qual vento impetuoso? 3 Perverteria Deus o direito? Ou perverteria o Todo-Poderoso a justiça? 4 Se teus filhos pecaram contra ele, ele os entregou ao poder da sua transgressão. 5 Mas, se tu com empenho buscares a Deus, e ,ao Todo-Poderoso fizeres a tua súplica, 6 se fores puro e reto, certamente mesmo agora ele despertará por ti, e tornará segura a habitação da tua justiça. 7 Embora tenha sido pequeno o teu princípio, contudo o teu último estado aumentará grandemente. 8 Indaga, pois, eu te peço, da geração passada, e considera o que seus pais descobriram. 9 Porque nós somos de ontem, e nada sabemos, porquanto nossos dias sobre a terra, são uma sombra. 10 Não te ensinarão eles, e não te falarão, e do seu entendimento não proferirão palavras? 11 Pode o papiro desenvolver-se fora de um pântano. Ou pode o junco crescer sem água? 12 Quando está em flor e ainda não cortado, seca-se antes de qualquer outra erva. 13 Assim são as veredas de todos quantos se esquecem de Deus; a esperança do ímpio perecerá, 14 a sua segurança se desfará, e a sua confiança será como a teia de aranha. 15 Encostar-se-á à sua casa, porém ela não subsistirá; apegar-se-lhe-á, porém ela não permanecerá. 16 Ele está verde diante do sol, e os seus renovos estendem-se sobre o seu jardim; 17 as suas raízes se entrelaçam junto ao monte de pedras; até penetra o pedregal. 18 Mas quando for arrancado do seu lugar, então este o negará, dizendo: Nunca te vi. 19 Eis que tal é a alegria do seu caminho; e da terra outros brotarão. 20 Eis que Deus não rejeitará ao reto, nem tomará pela mão os malfeitores; 21 ainda de riso te encherá a boca, e os teus lábios de louvor. 22 Teus aborrecedores se vestirão de confusão; e a tenda dos ímpios não subsistirá.
1 Então Jó respondeu, dizendo: 2 Na verdade sei que assim é; mas como pode o homem ser justo para com Deus? 3 Se alguém quisesse contender com ele, não lhe poderia responder uma vez em mil. 4 Ele é sábio de coração e poderoso em forças; quem se endureceu contra ele, e ficou seguro? 5 Ele é o que remove os montes, sem que o saibam, e os transtorna no seu furor; 6 o que sacode a terra do seu lugar, de modo que as suas colunas estremecem; 7 o que dá ordens ao sol, e ele não nasce; o que sela as estrelas; 8 o que sozinho estende os céus, e anda sobre as ondas do mar; 9 o que fez a ursa, o Oriom, e as Plêiades, e as recâmaras do sul; 10 o que faz coisas grandes e insondáveis, e maravilhas que não se podem contar. 11 Eis que ele passa junto a mim, e, não o vejo; sim, vai passando adiante, mas não o percebo. 12 Eis que arrebata a presa; quem o pode impedir? Quem lhe dirá: Que é o que fazes? 13 Deus não retirará a sua ira; debaixo dele se curvaram os aliados de Raabe; 14 quanto menos lhe poderei eu responder ou escolher as minhas palavras para discutir com ele? 15 Embora, eu seja justo, não lhe posso responder; tenho de pedir misericórdia ao meu juiz. 16 Ainda que eu chamasse, e ele me respondesse, não poderia crer que ele estivesse escutando a minha voz. 17 Pois ele me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas sem causa. 18 Não me permite respirar, antes me farta de amarguras. 19 Se fosse uma prova de força, eis-me aqui, diria ele; e se fosse questão de juízo, quem o citaria para comparecer? 20 Ainda que eu fosse justo, a minha própria boca me condenaria; ainda que eu fosse perfeito, então ela me declararia perverso: 21 Eu sou inocente; não estimo a mim mesmo; desprezo a minha vida. 22 Tudo é o mesmo, portanto digo: Ele destrói o reto e o ímpio. 23 Quando o açoite mata de repente, ele zomba da calamidade dos inocentes. 24 A terra está entregue nas mãos do ímpio. Ele cobre o rosto dos juízes; se não é ele, quem é, logo? 25 Ora, os meus dias são mais velozes do que um correio; fogem, e não vêem o bem. 26 Eles passam como balsas de junco, como águia que se lança sobre a presa. 27 Se eu disser: Eu me esquecerei da minha queixa, mudarei o meu aspecto, e tomarei alento; 28 então tenho pavor de todas as minhas dores; porque bem sei que não me terás por inocente. 29 Eu serei condenado; por que, pois, trabalharei em vão? 30 Se eu me lavar com água de neve, e limpar as minhas mãos com sabão, 31 mesmo assim me submergirás no fosso, e as minhas próprias vestes me abominarão. 32 Porque ele não é homem, como eu, para eu lhe responder, para nos encontrarmos em juízo. 33 Não há entre nós árbitro para pôr a mão sobre nós ambos. 34 Tire ele a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror; 35 então falarei, e não o temerei; pois eu não sou assim em mim mesmo.
1 Tendo tédio à minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma: 2 Direi a Deus: Não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo. 3 Tens prazer em oprimir, em desprezar a obra das tuas mãos e favorecer o desígnio dos ímpios? 4 Tens tu olhos de carne? Ou vês tu como vê o homem? 5 São os teus dias como os dias do homem? Ou são os teus anos como os anos de um homem, 6 para te informares da minha iniqüidade, e averiguares o meu pecado, 7 ainda que tu sabes que eu não sou ímpio, e que não há ninguém que possa livrar-me da tua mão? 8 As tuas mãos me fizeram e me deram forma; e te voltas agora para me consumir? 9 Lembra-te, pois, de que do barro me formaste; e queres fazer-me tornar ao pó? 10 Não me vazaste como leite, e não me coalhaste como queijo? 11 De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste. 12 Vida e misericórdia me tens concedido, e a tua providência me tem conservado o espírito. 13 Contudo ocultaste estas coisas no teu coração; bem sei que isso foi o teu desígnio. 14 Se eu pecar, tu me observas, e da minha iniqüidade não me absolverás. 15 Se for ímpio, ai de mim! Se for justo, não poderei levantar a minha cabeça, estando farto de ignomínia, e de contemplar a minha miséria. 16 Se a minha cabeça se exaltar, tu me caças como a um leão feroz; e de novo fazes maravilhas contra mim. 17 Tu renovas contra mim as tuas testemunhas, e multiplicas contra mim a tua ira; reveses e combate estão comigo. 18 Por que, pois, me tiraste da madre? Ah! se então tivera expirado, e olhos nenhuns me vissem! 19 Então fora como se nunca houvera sido; e da madre teria sido levado para a sepultura. 20 Não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento; 21 antes que me vá para o lugar de que não voltarei, para a terra da escuridão e das densas trevas, 22 terra escuríssima, como a própria escuridão, terra da sombra trevosa e do caos, e onde a própria luz é como a escuridão.
1 Então respondeu Zofar, o naamatita, dizendo: 2 Não se dará resposta à multidão de palavras? ou será justificado o homem falador? 3 Acaso as tuas jactâncias farão calar os homens? e zombarás tu sem que ninguém te envergonhe? 4 Pois dizes: A minha doutrina é pura, e limpo sou aos teus olhos. 5 Mas, na verdade, oxalá que Deus falasse e abrisse os seus lábios contra ti, 6 e te fizesse saber os segredos da sabedoria, pois é multiforme o seu entendimento; sabe, pois, que Deus exige de ti menos do que merece a tua iniqüidade. 7 Poderás descobrir as coisas profundas de Deus, ou descobrir perfeitamente o Todo-Poderoso? 8 Como as alturas do céu é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? Mais profunda é ela do que o Seol; que poderás tu saber? 9 Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar. 10 Se ele passar e prender alguém, e chamar a juízo, quem o poderá impedir? 11 Pois ele conhece os homens vãos; e quando vê a iniqüidade, não atentará para ela? 12 Mas o homem vão adquirirá entendimento, quando a cria do asno montês nascer homem.
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