Biografia de John Hus
John Hus nasceu
por volta do ano 1370, na Boêmia - região que, no mapa geopolítico
mundial, é ocupada, hoje, pela República Tcheca, país do Leste
Europeu. Em 1400, foi ordenado sacerdote e, desde o início de seu
ministério, quando assumiu o púlpito da Capela de Belém, em Praga,
tomou-se um estorvo, um incômodo para alguns de seus colegas.
Pregava insistentemente contra os privilégios do clero, e defendia a
necessidade urgente de uma reforma religiosa. A eloqüência de suas
pregações fez com que, rapidamente, boa parte da população o
seguisse.
A nobreza também
se rendeu ao seu discurso reformista e, há muito tempo, tentava
encontrar uma forma de limitar o poder eclesiástico. Calcula-se que,
na época, metade do território nacional boêmio pertencia à Igreja
Católica, enquanto à Coroa cabia apenas a sexta parte. No mesmo
período, com o apoio das autoridades, Hus traduziu o Novo Testamento
para a língua boêmia e tornou-se um simpatizante das obras de John
Wycliff (1329-1384), um reformador inglês.
Impedido de
pregar - Influenciado por algumas das doutrinas wiclifistas, Hus
pregava, dentre outros pontos, a autoridade suprema da Bíblia e a
predestinação - doutrinas negadas, até hoje, pela Igreja Católica.
Era a época em que existiam três papas comandando a Igreja, e
ninguém sabia ao certo quem era o legítimo. Feito reitor da
Universidade de Praga, Hus apoiava Alexandre V, eleito no Concílio
de Pisa. No entanto, o arcebispo local era fiel a um outro papa -
Gregório XII - e, por causa da disputa política, o arcebispo fez com
que Hus fosse impedido de pregar.
Hus - que
significa ganso na língua boêmia - não obedeceu à proibição e, por
isso, foi excomungado em 1411. Entretanto, seu pior ato de
insubordinação, e o que gerou sua condenação à morte, foi a crítica
feroz a uma atitude do terceiro papa, João XXIII. Em guerra contra o
rei de Nápoles, aquele papa decidiu financiar o conflito com a venda
de indulgências (remissão de pecados mediante pagamento à Igreja com
determinada quantia em dinheiro). Os vendedores chegaram à Boêmia,
tentando usar todo tipo de método para persuadir seus "fregueses".
Hus, imediatamente, protestou e afirmou que só Deus poderia conceder
indulgências e ninguém jamais poderia vender algo que procede
somente de Deus.
Seu discurso
movimentou o país e até passeatas de protesto foram organizadas. Hus
foi excomungado pela segunda vez, e mudou-se de Praga para o Sul da
Boêmia, a pedido do imperador. Ele permaneceu lá, até que, em 1414,
ficou sabendo da realização do concílio da igreja católico-romana de
Constança, na Alemanha. O evento, que contaria com a presença de
vários reformadores de renome, prometia inaugurar uma nova era na
vida da Igreja, pois seria decidido quem era o papa legítimo. Hus
foi convidado a expor seu caso e aceitou comparecer. Poucos dias
após sua chegada a Constança, foi convidado pelo Papa João XXIII
para uma assembléia composta apenas de cardeais. Hus insistiu que
estava ali para defender suas idéias diante do concílio e não em uma
reunião tão restrita. Antes não tivesse ido.
O boêmio saiu
daquela assembléia acusado de heresia e, a partir de então, passou a
ser tratado como prisioneiro. Em junho de 1415, finalmente foi
julgado pelo concilio. Por aquela época, João XXIII já fora deposto,
mas isso não melhorou a situação de Hus. O concilio lhe atribuía uma
série de heresias, as quais ele teria de admitir ser o autor. No
entanto, em momento algum, a direção do concilio se dispôs a ouvi-lo
sobre quais seriam, de fato, suas doutrinas. Hus, obviamente,
recusou-se a retratar-se de doutrinas que não havia propagado e,
assim, foi condenado à fogueira.
No dia 6 de
julho, ele foi levado até a Catedral de Constança para ouvir um
sermão sobre a teimosia dos hereges. Em seguida, teve seus cabelos
cortados, uma cruz foi desenhada em sua cabeça, e recebeu uma coroa
de papel decorada com desenhos de diabinhos. Mais uma vez, exigiram
que Hus se retratasse, mas ele não voltou atrás. Atribui-se a Hus as
seguintes palavras:
"Estou preparado
para morrer na Verdade do Evangelho que ensinei e escrevi". Hus
morreu cantando os Salmos, e sua morte deflagrou uma verdadeira
revolução contra a Igreja na Boêmia.
Recentemente, o
Papa João Paulo II reconheceu o erro de seus "infalíveis"
antecessores. Em dezembro de 1999, o líder católico pediu desculpas
- embora demasiadamente tardias - pela morte de Hus. Na ocasião,
falando sobre o reformador tcheco em um simpósio internacional
promovido pelo Vaticano, João Paulo II afirmou: "Hoje, às vésperas
do Grande Jubileu, sinto a necessidade de expressar profundo
arrependimento pela morte cruel infligida a John Hus e pelas
conseqüentes marcas de conflito e divisão deixadas nas mentes e nos
corações do povo boêmio". |