Biografia de Jonathan Edwards
Teólogo do Intelecto e do Coração
Introdução
Jonathan Edwards, um pastor
congregacional norte-americano que viveu no século XVIII, foi uma
das personalidades religiosas mais destacadas da história da igreja
nos últimos três séculos. Os estudiosos da sua vida e obra o tem
considerado o maior filósofo e teólogo já produzido pelos Estados
Unidos e especialmente o mais importante e influente dos calvinistas
americanos.(1) Benjamin B. Warfield cita o testemunho do filósofo
francês Georges Lyon, segundo o qual, tivesse Edwards permanecido
apenas no campo da filosofia e da metafísica, sem enveredar pela
teologia, ele talvez viesse a ocupar "um lugar ao lado de Leibnitz e
Kant entre os fundadores de sistemas imortais."(2)
O fato é que, tendo sido
inicialmente, durante a sua juventude, atraído pela filosofia,
notadamente sob a influência de grandes empiricistas e cientistas
ingleses como John Locke (1632-1704) e Isaac Newton (1642-1717),
eventualmente as preocupações de ordem religiosa tornaram-se
poderosamente dominantes em sua vida e pensamento. Tais preocupações
finalmente o levaram ao ministério pastoral e à teologia.
Além da sua notável produção
filosófica e teológica, Edwards destaca-se por outros fatores. Ele
foi também um extraordinário pregador, cujos sermões, proferidos com
a mais sincera convicção, causavam um poderoso impacto.(3) Em
virtude disso, ele veio a ser um dos protagonistas do célebre
avivamento religioso americano que ficou conhecido como o Grande
Despertamento (1735-44). Mais ainda, com sua pena habilidosa,
Edwards tornou-se o principal estudioso e intérprete do avivamento,
registrando descrições e análises sobre os seus fenômenos
espirituais e psicológicos que até hoje não foram superadas.
Finalmente, Edwards impressiona
por sua grande síntese entre fé e razão, tanto em sua vida pessoal
quanto em sua produção literária. Dotado de uma mente inquiridora e
disciplinada, e acostumado a refletir sobre um tema até as suas
últimas implicações, ele também foi um homem de espiritualidade
profunda e transbordante, que teve como a maior das suas
preocupações a celebração da graça e da glória de Deus.
No Brasil, a vida e contribuição
de Edwards ainda são essencialmente desconhecidas nos meios
evangélicos, até mesmo nos círculos acadêmicos.(4) A única coisa que
muitos associam com ele é o célebre sermão "Pecadores nas mãos de um
Deus irado,"(5) que, embora aborde um tema importante da sua
teologia, está longe de ser representativo da sua obra como um todo
e certamente não expressa algumas das principais ênfases da sua
reflexão.
Sobre este sermão, baseou-se em
Deuteronômio 32:35. Depois de explicar a passagem, acrescentou que
nada evitava que os pecadores caíssem no inferno, a não ser a
própria vontade de Deus. Afirmou que Deus estava mais encolerizado
com alguns dos ouvintes do que com muitas pessoas que já estavam no
inferno. Disse que o pecado era como um fogo encerrado dentro do
pecador e pronto, com a permissão de Deus, a transformar-se em
fornalhas de fogo e enxofre, e que somente a vontade de Deus
indignado os guardava da morte instantânea.
Continuou, então, aplicando ao
texto ao auditório: Aí está o inferno com a boca aberta. Não existe
coisa alguma sobre a qual vós vos possais firmar e segurar... há,
atualmente, nuvens negras da ira de Deus pairando sobre vossas
cabeças, predizendo tempestades espantosas, com grandes trovões. Se
não existisse a vontade soberana de Deus, que é a única coisa para
evitar o ímpeto do vento até agora, seríeis destruídos e vos
tornaríeis como a palha da eira... O Deus que vos segura na mão,
sobre o abismo do inferno, mais ou menos como o homem segura uma
aranha ou outro inseto nojento sobre o fogo, durante um momento,
para deixa-lo cair depois, está sendo provocado ao extremo... Não há
que admirar, se alguns de vós com saúde e calmamente sentados aí nos
bancos, passarem para lá antes de amanhã...
O sermão foi interrompido pelos
gemidos dos homens e os gritos das mulheres; quase todos ficaram de
pé ou caídos no chão. Durante a noite inteira a cidade de Enfield
ficou como uma fortaleza sitiada. Teve início um dos maiores
avivamentos dos tempos modernos na Nova Inglaterra.
O objetivo do presente artigo é
oferecer uma introdução ao estudo de Jonathan Edwards, o homem, o
líder, o pensador cristão. Iniciaremos com uma síntese da sua vida e
carreira ministerial, continuando com a apresentação e classificação
dos seus escritos e uma análise de alguns pontos salientes da sua
reflexão teológica, entre os quais as suas idéias acerca do
avivamento.(6)
I. Dados Biográficos
Jonathan Edwards nasceu em East
Windsor, Connecticut, em 5 de outubro de 1703, sendo seu pai um
piedoso ministro congregacional. Precoce e religioso desde a sua
meninice, aos 12 anos ele escreveu a uma de suas irmãs: Pela
maravilhosa bondade e misericórdia de Deus, houve neste lugar uma
extraordinária atuação e derramamento do Espírito de Deus,... tenho
razões para pensar que agora diminuiu em certa medida, mas espero
que não muito. Cerca de treze pessoas uniram-se à igreja em um
estado de plena comunhão.(7) Depois de dar os nomes dos convertidos,
ele acrescentou: "Acho que muitas vezes mais de trinta pessoas se
reúnem às segundas-feiras para falar com o Pai acerca da condição
das suas almas."
O lar de Edwards estimulou de
maneira poderosa a sua vida espiritual e intelectual. Ele começou a
estudar latim aos seis anos e aos treze também já havia adquirido um
respeitável conhecimento de grego e hebraico. Após quatro anos de
estudos no Colégio de Yale, em New Haven, Edwards obteve o seu grau
de bacharel em 1720. Logo em seguida, encetou seus estudos
teológicos na mesma instituição, obtendo o grau de mestre em 1722.
Após pastorear uma igreja presbiteriana em Nova York por oito meses
(1722-23) e atuar como professor assistente em Yale por dois anos,
em 1726, aos 23 anos de idade, Edwards passou a trabalhar como
pastor-assistente do seu avô, Solomon Stoddard (1643-1729), o famoso
ministro da igreja de Northampton, Massachusetts. Essa igreja era
provavelmente a maior e a mais influente da província, à exceção de
Boston. Houve uma época em que chegou a ter seiscentos e vinte
membros, incluindo quase toda a população adulta da cidade.
Em julho de 1727, Edwards
casou-se com Sarah Pierrepont, então com 17 anos, filha de James
Pierrepont, o conhecido pastor da igreja de New Haven, e bisneta do
primeiro prefeito de Nova York. Os historiadores destacam a grande
harmonia, amor e companheirismo que caracterizou a vida do casal.(8)
Eles gostavam de andar a cavalo ao cair da tarde para poderem
conversar e antes de se recolherem sempre tinham juntos os seus
momentos devocionais.
Jonathan e Sarah tiveram 11
filhos, todos os quais chegaram à idade adulta, fato raro naqueles
dias. Em 1900, um repórter identificou 1400 descendentes do casal
Edwards. Entre eles houve 15 dirigentes de escolas superiores, 65
professores, 100 advogados, 66 médicos, 80 ocupantes de cargos
públicos, inclusive 3 senadores e 3 governadores de estados, além de
banqueiros, empresários e missionários.(9)
Em 1729, com a morte do seu avô,
Jonathan tornou-se o pastor titular da igreja de Northampton, na
qual, através de sua poderosa pregação, ocorreu um grande avivamento
cinco anos mais tarde (1734-35).(10) O Grande Despertamento, que
tivera os seus primórdios alguns anos antes entre os presbiterianos
e reformados holandeses na Pensilvânia e Nova Jersey, cresceu com as
pregações de Edwards e atingiu o seu apogeu no ano de 1740, com o
trabalho itinerante do grande avivalista inglês George Whitefield
(1714-1770).(11)
Em 1750, após 23 anos de
pastorado, Jonathan Edwards foi despedido pela sua igreja. A razão
principal foi a sua insistência de que somente pessoas convertidas
participassem da Ceia do Senhor, em contraste com a prática anterior
do seu avô. No seu sermão de despedida, depois de advertir a igreja
sobre as contendas que nela havia e os perigos que isso
representava, ele concluiu: Portanto, quero exortá-los sinceramente,
para o seu próprio bem futuro, que tomem cuidado daqui em diante com
o espírito contencioso. Se querem ver dias felizes, busquem a paz e
empenhem-se por alcançá-la (1 Pe 3.10-11). Que a recente contenda
sobre os termos da comunhão cristã, tendo sido a maior, seja também
a última. Agora que lhes prego meu sermão de despedida, eu gostaria
de dizer-lhes como o apóstolo Paulo disse aos Coríntios em 2
Coríntios 13.11: "Quanto ao mais, irmãos, adeus! Aperfeiçoai-vos,
consolai-vos, sede do mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor
e de paz estará convosco".(12)
No ano seguinte, Edwards foi para
Stockbridge, uma região remota da colônia de Massachusetts, onde
trabalhou como pastor dos colonos e missionário entre os índios. Em
1757, a sua excelência como educador e sua fama como teólogo e
filósofo fizeram com que ele fosse convidado para ser o presidente
do Colégio de Nova Jersey, a futura Universidade de Princeton. Em 22
de março de 1758, um mês após a sua posse, Edwards morreu devido a
complicações resultantes de uma vacina contra varíola.
II. Produção Literária
A produção literária de Jonathan
Edwards foi gigantesca.(13) Antes de completar vinte anos, quando
ainda estudava teologia em Yale, ele começou a escrever o tratado
filosófico Sobre o Ser. Pouco depois (1722-23), ele redigiu as suas
célebres Resoluções e começou a escrever o seu Diário e as
Miscelâneas. As Resoluções são 70 regras de disciplina pessoal que
Edwards comprometeu-se a ler uma vez por semana durante o resto da
sua vida.(14) Em seu Diário, ele faz um profundo auto-exame e
preocupa-se em avaliar até que ponto estava cumprindo com as
resoluções. Já as Miscelâneas são cadernos teológicos ou uma espécie
de diário intelectual que Edwards escreveu ao longo de trinta e
cinco anos e mostram o desenvolvimento do seu pensamento. Edwards
também escreveu sobre suas experiências de vida em sua Narrativa
Pessoal (1739), que oferece uma visão fascinante da sua infância, do
relacionamento com o seu pai e de suas lutas com o seu próprio
pecado e com as doutrinas calvinistas da soberania de Deus e da
predestinação.
Algumas das obras mais
penetrantes de Edwards tratam do fenômeno da psicologia religiosa, a
partir das suas próprias experiências com os reavivamentos de
Northampton e, posteriormente, com o Grande Despertamento como um
todo. Seu primeiro escrito a tratar da natureza da experiência
religiosa nesse contexto foi uma carta escrita em 1736, publicada no
ano seguinte sob o título Fiel Narrativa da Surpreendente Obra de
Deus (também conhecida como Narrativa de Conversões Surpreendentes).
Essa carta analisa eventos ocorridos durante o reavivamento local em
Northampton (1734-35). Alguns anos mais tarde Edwards publicou
Marcas Distintivas de uma Obra do Espírito de Deus (1741) e Alguns
Pensamentos Acerca do Presente Reavivamento da Religião na Nova
Inglaterra (1742), tratando do movimento mais amplo.(15) Em 1746,
ele publicou seu estudo mais amadurecido sobre a experiência do
avivamento, o Tratado Sobre as Afeições Religiosas, baseado em uma
série de sermões sobre 1 Pedro 1:8 ("... a quem, não havendo visto,
amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria
indizível e cheia de glória"). Nessa obra ele argumenta que o
verdadeiro cristianismo não é evidenciado pela quantidade ou
intensidade das emoções religiosas, mas está presente sempre que um
coração é transformado para amar a Deus e buscar o seu prazer.
Edwards também produziu muitas
obras teológicas altamente significativas. À semelhança das suas
obras sobre a experiência religiosa, os seus escritos teológicos têm
uma dimensão prática, estando diretamente ligados a acontecimentos e
preocupações do seu tempo. Por exemplo, a controvérsia em que se
envolveu com a sua congregação sobre quem tinha o direito de
participar da Santa Ceia levou-o a escrever Qualificações para a
Comunhão, em 1749, onde argumenta que somente pessoas convertidas
devem receber o sacramento.
Rejeitado por sua igreja, Edwards
passou os últimos oito anos da sua vida na remota Stockbridge,
período esse que foi o mais fértil na sua reflexão e produção
teológica. Foi nessa época que ele escreveu seu monumental tratado A
Liberdade da Vontade(16) (1754), onde argumenta que o ser humano é
certamente livre (uma idéia crescentemente popular na Idade da
Razão), mas Deus permanece soberano e é o único responsável pela
salvação humana.(17) Outras obras escritas nesse período foram: O
Fim Para o Qual Deus Criou o Mundo e A Natureza da Verdadeira
Virtude(18) (publicadas postumamente em 1765); O Pecado Original
(1758); e História da Obra da Redenção.
Edwards não chegou a concluir sua
História da Obra da Redenção, um colossal tratado teológico na forma
de uma história, em que ele planejava traçar a atuação de Deus desde
a criação até os seus próprios dias. A fim de preparar-se para essa
tarefa, Edwards leu todas as obras históricas a que teve acesso. O
material básico do tratado, uma série de preleções feitas em 1739,
foi publicado na Escócia em 1774 e nos Estados Unidos em 1786.
Outro volumoso conjunto de
escritos deixados por Edwards são os seus sermões, um dos quais,
"Deus é Glorificado na Dependência do Homem" (1 Co 1:29-31), pregado
a um grupo de pastores de Boston em 1731, foi o primeiro dos seus
escritos a ser publicado. Outro importante sermão é "Uma Luz Divina
e Sobrenatural" (Mt 16:17), proferido em 1733. Ocupam lugar de
destaque os seus 15 sermões sobre "A Caridade e seus Frutos" (1
Coríntios 13), pregados à igreja de Northampton em 1738, mas
publicados somente em 1851.
A correspondência pessoal de
Edwards também constitui-se em um volumoso e valioso conjunto de
escritos, pois nela ele aborda os mesmos temas palpitantes dos seus
tratados e sermões.(19) O seu "Relato do Reavivamento de Northampton
em 1740-42" faz parte de uma carta que escreveu a um destacado
ministro de Boston.
Edwards também escreveu uma
biografia do famoso missionário aos indígenas norte-americanos David
Brainerd (1718-1747) e publicou o seu Diário, um clássico devocional.
Brainerd estava para casar-se com Jerusha, uma filha de Edwards, e
morreu na casa deste aos 29 anos de idade, vitimado pela
tuberculose.
III. Contexto Religioso e
Intelectual
Quando Jonathan Edwards iniciou o
seu ministério, a região em que vivia, a Nova Inglaterra, já vinha
sendo colonizada pelos ingleses e seus descendentes há um século. Os
colonizadores foram os célebres puritanos, calvinistas que lutaram
por uma igreja mais pura no seu país de origem e que eventualmente
vieram para o Novo Mundo a fim de viverem sem impedimentos de acordo
com as suas convicções religiosas. Ao chegarem a Massachusetts,
primeiro a Plymouth (1620) e depois a Salem e Boston (1629-30), eles
procuraram edificar uma comunidade verdadeiramente cristã e uma
igreja composta de pessoas convertidas e comprometidas com Deus.
Apesar de alguns problemas, e de certa intolerância para com outros
grupos que pensavam de maneira diferente, eles conseguiram realizar
esses ideais por algum tempo.
Eventualmente, depois de um
período inicial de sofrimentos e provações amargas, os colonos
prosperaram materialmente na nova terra cheia de tantas
oportunidades. No final do século XVII, a vida na Nova Inglaterra
era em grande parte pacífica e confortável. A maioria das pessoas
pertencia à classe média e quase não havia pobreza. O nível
educacional também era relativamente alto.(20) Todo esse progresso
havia sido alcançado por causa dos valores religiosos e éticos dos
puritanos, como o seu amor ao trabalho, sua disciplina de vida, sua
rejeição de vícios e a preocupação em serem bons mordomos das
bênçãos de Deus. Porém, juntamente com a prosperidade material,
ocorreu um declínio no fervor religioso entre as novas gerações. O
cristianismo de muitos tornou-se meramente nominal; o mundanismo e a
apatia espiritual afetaram seriamente as igrejas.
Ao mesmo tempo, as novas
ideologias vindas da Europa estavam exercendo uma influência
crescente sobre a sociedade. A Idade da Razão caracterizou-se pela
crença na capacidade do ser humano para o bem, especialmente ao agir
segundo os ditames da razão. O racionalismo iluminista e sua versão
religiosa, o deísmo, ameaçavam diretamente não somente as convicções
evangélicas e reformadas dos puritanos, mas também os próprios
fundamentos do cristianismo histórico. Muitos pensadores europeus e
americanos rejeitavam a idéia de uma humanidade pecadora que estava
sob o julgamento de um Deus justo.
Como um homem culto e inquiridor,
alguém que levava a sério as realidades e desafios do seu tempo,
Edwards propôs-se, em sua reflexão e em sua prática, a defrontar-se
com esse duplo ataque experimentado pela fé reformada. Ele envidou
esforços não somente no sentido de que a vida e a espiritualidade da
igreja resgatassem o que havia de positivo na experiência e
contribuição dos puritanos, mas ao mesmo tempo procurou fazê-lo de
maneira intelectualmente defensável, buscando demonstrar que não
havia qualquer conflito intransponível entre fé e razão.
Sendo um líder solidamente
firmado na tradição puritana, com sua ênfase na experiência
espiritual, e não somente no conhecimento intelectual das verdades
da fé, Edwards recebeu com alegria a eclosão do avivamento em sua
própria igreja e posteriormente em escala mais ampla, não só na Nova
Inglaterra mas em outras partes das colônias americanas. Os
pregadores do Grande Despertamento não puseram de lado a ênfase
puritana nas doutrinas, mas apelaram fortemente às emoções.(21)
Alguns deram ênfase excessiva às manifestações físicas associadas
com os sentimentos religiosos. As pessoas tocadas por um sermão
poderiam desmaiar, gritar, contorcer-se, cantar e ter outros tipos
de reações físicas.
Obviamente, nem todos os líderes
religiosos ficaram empolgados com tais ocorrências. Muitos clérigos
influenciados pelo racionalismo, dos quais o mais famoso era Charles
Chauncy, de Boston, ressentiam-se com o entusiasmo religioso gerado
pelo avivamento. Eles o consideravam uma ameaça à autoridade
estabelecida da igreja. Entendiam que o subjetivismo religioso
apelava aos instintos inferiores e que uma pessoa racional não
necessitaria que as suas crenças fossem substanciadas por um coração
aquecido e muito menos por desmaios, gemidos ou pulos de
alegria.(22) Assim sendo, surgiram dois partidos: os pastores
contrários ao avivamento, chamados Old Lights, que temiam uma
ruptura da ordem e da autoridade religiosa, e os New Lights,
favoráveis ao movimento, muitos dos quais também preocupavam-se com
as distorções ocorridas.
IV. Interpretando o Avivamento
Jonathan Edwards defrontou-se com
a difícil tarefa de defender o avivamento dos ataques dos críticos e
ao mesmo tempo apontar os desvios e falsas concepções acerca da vida
espiritual que o movimento podia gerar. Suas excepcionais
qualificações intelectuais e espirituais contribuíram para fazer
dele o notável intérprete do Grande Despertamento. Nas suas
primeiras análises do tema, Fiel Narrativa da Surpreendente Obra de
Deus (1736), Marcas Distintivas de uma Obra do Espírito de Deus
(1741) e Alguns Pensamentos Acerca do Presente Reavivamento da
Religião na Nova Inglaterra (1742), ele não só descreve com detalhes
os acontecimentos verificados na sua igreja e na região, mas
preocupa-se em responder às acusações de que o reavivamento
limitava-se a emoções, superficialidade e desordem. Ele admitiu que
o emocionalismo podia prejudicar o cristianismo autêntico, mas
também defendeu o avivamento apontando para o culto mais intenso e
para as vidas permanentemente transformadas.(23)
Curiosamente, ao escrever a
última obra mencionada acima, Edwards baseou-se em parte nas
experiências da sua esposa. Em janeiro de 1742, quando ele estava
ausente fazendo conferências, Sarah teve uma intensa crise
espiritual marcada por desmaios, visões e êxtases. Quando Edwards
regressou, toda a cidade estava comentando o assunto. Ele sentou-se
com Sarah, pediu-lhe que lhe contasse tudo o que ocorrera e escreveu
toda a sua história. Sarah lhe disse que havia recebido uma certeza
do favor de Deus como nunca havia experimentado até então, bem como
o mais profundo sentimento de alegria espiritual. Edwards
convenceu-se de que a experiência da sua esposa foi uma crise
espiritual a ser atribuída à atuação de Deus e afirmou que a partir
de então ela passou a realizar os seus deveres domésticos como um
"serviço de amor" marcado por constante satisfação, paz e
alegria.(24)
Todavia, suas idéias mais
refletidas e profundas encontram-se no seu grande clássico, o
Tratado Sobre as Afeições Religiosas (1746), escrito numa época em
que a Grande Despertamento já havia perdido o seu ímpeto inicial.
Edwards argumenta que a verdadeira religiosidade reside no coração,
a sede dos afetos, emoções e inclinações. Ao mesmo tempo, ele
descreve com detalhes os tipos de emoções religiosas que são em
grande parte irrelevantes para qualquer aferição de uma verdadeira
espiritualidade. A obra termina com uma apresentação das doze
"marcas" que indicam a presença da religião verdadeira. Ele acentua,
em síntese, que não é a quantidade de emoções que indicam a presença
da verdadeira espiritualidade, mas a origem de tais emoções em Deus
e a sua manifestação através de obras consoantes com a lei de Deus.
Portanto, Edwards destacou a
centralidade das afeições na genuína experiência religiosa. Conforme
ele mesmo afirma, "as Escrituras Sagradas em toda parte colocam a
religião mui fortemente nas afeições, tais como temor, esperança,
amor, ódio, desejo, alegria, tristeza, gratidão, compaixão e
zelo."(25) Como pondera George Marsden, Edwards defendeu a religião
do coração em contraste com os críticos do reavivamento que ficavam
somente com uma religião da cabeça, um cristianismo que limitava-se
a crer nas doutrinas certas e observar uma moralidade
apropriada.(26) Por outro lado, em seu tratado Edwards delineou
cuidadosamente alguns testes bíblicos para avaliar a genuína
experiência religiosa, incluindo entre eles a ênfase na obra
graciosa de Deus, doutrinas consistentes com a revelação bíblica e
uma vida caracterizada pelos frutos do Espírito.
Essa ênfase numa espiritualidade
calorosa e experimental é que torna Edwards tão atraente para o
grande pastor e escritor reformado do século XX que foi D. Martin
Lloyd-Jones. Ele considera que "em Edwards chegamos ao zênite ou ao
ápice do puritanismo, pois nele temos o que vemos em todos os outros
[puritanos], mas, em acréscimo, este espírito, esta vida, esta
vitalidade adicional."(27) Além das experiências da sua esposa,
Edwards também relata experiências pessoais de intensa emoção
religiosa. Ele fala, por exemplo, do que lhe aconteceu em 1737,
quando orava nos bosques, em meio a uma cavalgada, e teve uma visão
da glória de Cristo que o manteve "a maior parte do tempo num mar de
lágrimas, chorando em voz alta."(28)
Edwards admite, portanto, a
possibilidade de manifestações emocionais e mesmo físicas como
conseqüência de uma experiência religiosa genuína, de um verdadeiro
encontro com Deus. Ele pode apontar para inúmeros exemplos bíblicos
em que manifestações gloriosas do Ser Divino causaram um poderoso
impacto sobre diferentes personagens. O que ele não concebe é que
tais manifestações sejam evidências decisivas a favor ou contra a
autenticidade de uma experiência religiosa. Elas não constituem uma
norma geral: a maneira como alguém experimenta a realidade de Deus
não é necessariamente igual à de outro. O que realmente revela se a
experiência é verdadeira ou espúria são os efeitos, os frutos
revelados na vida e na conduta, a médio e longo prazo.
V. A Centralidade de Deus
A espiritualidade e a prática
pastoral de Edwards têm o seu fulcro em suas concepções a respeito
de Deus. A sua teologia, suas noções acerca do avivamento, sua
cosmovisão e a sua ética individual e social têm aqui o seu ponto de
partida. Para Edwards, como bem aponta Lloyd-Jones, a religião é
acima de tudo um encontro vivo e existencial com Deus.(29) Edwards
dá forte ênfase à soberania, ao amor e à glória de Deus. O próprio
propósito de Deus ao criar o universo foi expressar o seu amor,
comunicar-se com as suas criaturas, revelar a sua glória e o seu
resplendor. Para Edwards, como destaca Marsden, "a essência da
verdadeira experiência religiosa consiste em ser prostrado pela
visão da beleza de Deus, ser atraído pela glória das suas
perfeições, sentir o seu amor irresistível."(30)
Assim atua a graça soberana de
Deus: o coração humano é transformado pelo seu poder irresistível,
mas esse poder não é exercido como uma força externa imposta à
vontade. Antes, quando os olhos são abertos e a pessoa é cativada
pela beleza, glória e amor de Deus, quando a pessoa vê esse amor
manifesto supremamente na beleza do amor sacrifical de Cristo, ela é
alegremente compelida a abandonar o amor-próprio como o princípio
central da vida, voltando-se para o amor de Deus.(31) Edwards
descreve o lado humano dessa experiência regeneradora como o
recebimento de um sexto sentido – um senso da beleza, glória e amor
de Deus.
Assim sendo, o conhecimento de
Deus na verdadeira experiência cristã será um conhecimento
"sensível." Ele é diferente do mero conhecimento especulativo, do
mesmo modo como o sabor do mel é diferente da simples compreensão de
que o mel é doce. Portanto, a verdadeira experiência cristã não
fundamenta-se apenas no conhecimento e na afirmação das doutrinas
cristãs verdadeiras, por importantes que elas sejam. Antes, é um
conhecimento afetivo, ou um senso das verdades que as doutrinas
descrevem. É o que Edwards afirma em seu célebre sermão "Uma Luz
Divina e Sobrenatural": Aquele que é espiritualmente iluminado...
não crê de maneira meramente racional que Deus é glorioso, mas tem
um senso da natureza gloriosa de Deus em seu coração. Não há somente
uma percepção racional de que Deus é santo, e de que a santidade é
uma coisa boa, mas há uma percepção do caráter atraente da santidade
de Deus. Não há apenas a conclusão especulativa de que Deus é
gracioso, porém o senso de quão amável Deus é, ou o senso da beleza
deste atributo Divino.(32)
Além de afirmar a centralidade de
Deus na vida espiritual e na experiência religiosa do crente,
Edwards também o faz com relação ao mundo material. As novas
concepções científicas e filosóficas da Idade da Razão davam ênfase
a um universo cada vez menos dependente de Deus. Este parecia
desnecessário em um cosmos que funcionava independentemente seguindo
as suas próprias leis. O Ser Supremo dos deístas estava mui distante
da sua criação. Edwards reagiu contra essas idéias, afirmando que
Deus deve ocupar um lugar central em toda a visão da realidade. A
essência de Deus é o amor, o que para Edwards significa que Deus
está constantemente comunicando o seu caráter, beleza, amor e glória
às suas criaturas. Deus não é somente o Criador, mas a cada momento
sustenta a sua criação e fala por meio dela. Deus é distinto da
criação; todavia, a criação tem uma qualidade pessoal, sendo parte
da linguagem pela qual Deus expressa a sua bondade e glória às suas
criaturas.(33)
VI. Da Teologia à Ética
Sem abandonar a antropologia
reformada tradicional, Edwards lhe dá novas ênfases e a expõe de
maneira peculiar em sua reação aos postulados do arminianismo e do
racionalismo. Como John H. Leith aponta, Edwards dá muito maior
atenção à vontade humana do que o fez Calvino.(34) Em A Liberdade da
Vontade, Edwards argumenta que a vontade não é uma faculdade
independente, mas uma expressão da motivação humana mais
fundamental. "Querer" algo é agir de acordo com os motivos mais
fortes que existem no íntimo do indivíduo. O ser humano é moralmente
livre para fazer o que lhe agrada, porém o que lhe agrada é
determinado por motivos dos quais ele não é senhor.(35) Mark Noll
observa que o que Edwards faz aqui é argumentar de maneira
agostiniana e calvinista que as ações humanas são sempre
consistentes com o caráter humano.(36)
Particularmente importantes para
Edwards são as implicações soteriológicas dessa concepção da
natureza humana. Aquele que é pecador por natureza jamais escolheria
glorificar a Deus, a menos que o próprio Deus transformasse o
caráter dessa pessoa, implantando um novo "senso do coração" para
amar e servir a Deus. A regeneração, um ato de Deus, é o fundamento
do arrependimento e da conversão, que são ações humanas. Em O Pecado
Original, Edwards argumenta que toda a humanidade estava presente em
Adão quando este pecou e por isso todos partilham da tendência para
o pecado e da culpa que Adão trouxe sobre si mesmo. Assim, os
indivíduos são responsáveis pela sua própria pecaminosidade e ao
mesmo tempo estão presos aos ditames de uma natureza caída, até que
sejam convertidos pela graça soberana de Deus.
Noll observa que grande parte dos
temas centrais da teologia de Edwards estão presentes na reflexão
ética que dominou o último período da sua vida.(37) Ele estava
especialmente preocupado em contestar a "nova filosofia moral" do
Iluminismo, segundo a qual o ser humano possui certa faculdade
natural que, adequadamente cultivada, aponta o caminho para uma vida
virtuosa. Em reação a isso, Edwards afirma enfaticamente que a
verdadeira virtude não pode ser entendida à parte de Deus e da sua
revelação. Em A Natureza da Verdadeira Virtude, Edwards argumenta
que a genuína moralidade somente pode resultar da graça regeneradora
de Deus.
A abordagem de Edwards nessa obra
é tríplice. Primeiramente, ele reconheceu algum valor na obra dos
novos moralistas. Por causa da graça comum, as pessoas possuem uma
capacidade natural de agir eticamente em um determinado sentido. Em
segundo lugar, no entanto, Edwards insistiu que os benefícios
sociais da virtude natural ficam aquém da verdadeira virtude. Para
ele, o fundamento inabalável continua sendo a graça regeneradora
pela qual Deus vivifica o pecador. Estritamente falando, não há
nenhuma coisa verdadeiramente boa que não seja sempre e em toda
parte dependente de Deus. Finalmente, Edwards também procurou
demonstrar que a imagem da virtude apresentada pelos novos filósofos
morais era simplesmente um misto de prudência, interesse pessoal e
amor-próprio. Com tudo isso, ele quis preservar a particularidade da
graça e reafirmar a bondade de Deus como a única fonte legítima da
verdadeira virtude.(38)
Essas considerações suscitam
novamente a questão do avivamento, porque para Edwards existe sempre
uma profunda conexão entre ética e espiritualidade. Não se pode
separar a autêntica experiência de Deus dos frutos individuais e
comunitários que necessariamente produz. É essa precisamente a
ênfase do Tratado sobre as Afeições Religiosas, no qual Edwards
analisa o avivamento a partir da experiência pessoal do crente. Ao
enumerar os sinais fidedignos e não fidedignos da verdadeira
espiritualidade, ele fornece princípios valiosos pelos quais é
possível avaliar se uma obra espiritual ou um movimento religioso
procede efetivamente do Espírito de Deus. Luiz Mattos sintetiza tais
princípios da seguinte maneira: Quaisquer manifestações externas
resultantes de experiências extraordinárias não constituem um sinal
confiável de espiritualidade e não evidenciam uma obra genuína do
Espírito.
Uma obra autêntica do Espírito de
Deus produz uma transformação radical da natureza da alma
individual, que irá manifestar-se em uma conduta e em práticas
inteiramente novas, revelando progressivamente a própria imagem de
Cristo implantada no crente.(39)
Em outras palavras, a experiência
religiosa verdadeira produz uma mudança ética individual que
eventualmente irá externar-se na coletividade. Se tal mudança não
puder ser percebida, seja no indivíduo, seja na comunidade, o
reavivamento deve ser contestado como uma obra genuína de Deus. Esse
aspecto social do reavivamento é elaborado por Edwards no seu
tratado inconcluso História da Obra da Redenção, no qual, sob a
ótica de sua posição pós-milenista, ele argumenta que uma
coletividade que experimenta o avivamento irá apresentar os sinais
da manifestação do reino de Deus. Essa sociedade "será
dramaticamente transformada, não por qualquer esforço humano
político ou revolucionário, mas pela ética do Reino a permear todos
os relacionamentos."(40)
Finalmente, é nas magníficas
obras gêmeas O Fim Para o Qual Deus Criou o Mundo e A Natureza da
Verdadeira Virtude, bem como na rica série de sermões intitulada A
Caridade e Seus Frutos, que Edwards expressa alguns de seus mais
sublimes pensamentos acerca da experiência religiosa, focalizando-a,
como é sempre a sua preocupação, firmemente em Deus. Embora existam
fins subordinados pelos quais Deus decidiu criar o mundo, entre os
quais a felicidade do ser humano, somente pode haver um fim último e
supremo, a saber, a manifestação da glória do próprio Deus. A
felicidade é parte do propósito final de Deus para o ser humano, mas
não a felicidade que provém de um estilo de vida egocêntrico, e sim
aquela que resulta de se viver para a glória de Deus. Isso se
evidencia acima de tudo através do amor, primeiramente para com Deus
e então para com as outras pessoas.
Um avivamento genuíno é aquele em
que Deus, sua glória e vontade, constituem a motivação primordial,
todos os outros interesses estando subordinados a esse. Como aponta
Luiz Mattos, "a expectativa de manifestações extraordinárias ou dons
extraordinários não percebe de maneira adequada o alvo final de Deus
ao conceder tais despertamentos."(41) A manifestação suprema a ser
desejada é o fruto mais rico do Espírito de Deus, o amor, que irá
traduzir-se em relacionamentos humanos transformados e enriquecidos.
Conclusão
Jonathan Edwards foi inteiramente
contrário à separação entre "coração" e "cabeça" que tantas vezes
tem afetado os evangélicos. Uma das peculiaridades da sua obra
teológica é justamente o fato de unir o mais rico sentimento
religioso aos mais elevados poderes intelectuais. Por um lado, à
semelhança de muitos filósofos seculares do Iluminismo, ele
acreditava que o ser humano é capaz de raciocinar adequadamente e
resolver problemas de maneira lógica. Por outro lado, Edwards fez
uma síntese entre fé e razão que o põe em continuidade com grande
parte da história do pensamento cristão.
Embora tenha sido um pensador
independente e original, ele estava cônscio da obra de precursores
seus como os reformadores e os puritanos, e certamente foi
influenciado por eles. Ainda que não tenha sido um seguidor servil
de Calvino, Edwards foi um defensor convicto do calvinismo. A sua
originalidade está não tanto no conteúdo do seu pensamento quanto na
sua maneira de pensar, produzindo uma grande quantidade de
argumentos novos e profundos em apoio das antigas doutrinas da
graça. Warfield opina que a defesa do calvinismo feita por Edwards
deteve por mais de um século a conquista da Nova Inglaterra pelo
arminianismo.(42)
Como bem aponta Lloyd-Jones,
Edwards evidencia-se pelo equilíbrio em suas posições teológicas e
práticas.(43) Ao mesmo tempo que combate o arminianismo, ele também
se opõe ao hiper-calvinismo. Ele afirma com igual ênfase a
importância da vida piedosa, de devoção e cultivo da interioridade,
mas também a necessidade de que essa vida produza frutos visíveis
nos relacionamentos e na comunidade. No entanto, as suas escolhas e
prioridades são bem definidas. Apesar da grande atração que sente
pela razão e pelo intelecto, nele o aspecto espiritual sempre domina
o intelectual e as Escrituras sempre se sobrepõem às especulações
filosóficas.
Edwards não esconde a sua
apreciação por uma espiritualidade fervorosa e intensa. Ele é de
fato o teólogo do avivamento, da experiência, do coração.(44) Mas
isso não significa que a experiência seja o critério da verdade.
Significa apenas que o cristianismo tem de ser experimental e
prático, não apenas racional e cognitivo. A norma suprema de fé e o
critério pelo qual se deve aquilatar toda e qualquer experiência
religiosa é sempre a Escritura. Curiosamente, Edwards entende que
não somente os adeptos do avivamento podem apelar erroneamente para
as suas experiências pessoais subjetivas, como também os opositores
do avivamento. Aqueles que não vivenciaram certas realidades
espirituais, aqueles que não experimentaram determinadas "afeições"
religiosas em sua vida, também não podem apelar para essa falta de
uma experiência mais profunda de Deus para condenar os que a
tiveram.
Por todas essas razões, Edwards é
muito útil para as discussões atuais acerca da verdadeira
espiritualidade. Seu critério básico para definir a questão é o
mesmo que deve ser observado pela igreja contemporânea: verificar
até que ponto Deus ocupa o lugar central da vida, do culto, das
práticas e do testemunho. Além de advertir contra o mero
emocionalismo, que excita as emoções mas não produz transformações
duradouras, Edwards também combate o erro de se dar ênfase não a
Deus, mas às respostas humanas a Deus, algo tão comum nos nossos
dias com toda a celebração do eu, a empolgação religiosa e os
testemunhos auto-gratulatórios. Em última análise, o que determina
se a conversão e a vida espiritual são genuínas ou não, são os seus
frutos visíveis: convicção de pecado, seriedade nas coisas
espirituais, preocupação com a glória de Deus, apego às Escrituras,
mudança no comportamento ético, relações pessoais transformadas e
influência regeneradora na comunidade.
1 Jonathan Edwards passou a
despertar grande interesse entre os estudiosos a partir da início da
década de 1930, graças ao trabalho de pesquisadores como Perry
Miller, que o caracterizou como "o maior filósofo-teólogo que já
adornou o cenário americano."
Ver Paul Helm,
"Edwards, Jonathan," em The New International Dictionary of the
Christian Church, gen. ed. J.D. Douglas (Grand Rapids: Zondervan,
1978).
2 Benjamin B.
Warfield, "Edwards and the New England Theology," Encyclopedia of
Religion and Ethics, 1912. Também em The Works of B.B. Warfield,
Vol. 9 (Studies in Theology), 515-538.
3 Segundo Warfield, foi em seus
sermões que os estudos de Edwards produziram seus frutos mais ricos.
Os sermões de Jonathan Edwards constituem o maior conjunto de
manuscritos originais desse autor ainda disponíveis.
4 Uma exceção é o trabalho de
Luiz Roberto França de Mattos, "Jonathan Edwards and the Criteria
for Evaluating the Genuineness of the ‘Brazilian Revival’,"
Dissertação de Mestrado, São Paulo, Centro Presbiteriano de
Pós-Graduação Andrew Jumper, 1997.
5 Jonathan Edwards, Pecadores
nas Mãos de um Deus Irado, 3ª ed. (São Paulo: Publicações
Evangélicas Selecionadas, c.1993). Esse sermão foi pregado por
Edwards na cidade de Enfield, Connecticut, em 1741.
6 Obviamente, a literatura
acerca de Edwards e seu pensamento é imensa.
Alguns poucos exemplos
são os seguintes: Perry Miller, Jonathan Edwards (Westport:
Greenwood, 1995 [1949] ); C. Cherry, The Theology of Jonathan
Edwards: A Reappraisal (Bloomington: Indiana University Press, 1990
[1966]); Iain H. Murray, Jonathan Edwards: A New Biography
(Southampton, Inglaterra: Banner of Truth, 1987); John H. Gerstner,
Jonathan Edwards: A Mini-Theology (Wheaton, Illinois: Tyndale,
1987); Gerald R. McDermott, One Holy and Happy Society: The Public
Theology of Jonathan Edwards (Pennsylvania State University Press,
1992); John E. Smith, Jonathan Edwards: Puritan, Preacher,
Philosopher (South Bend: University of Notre Dame, 1992); John E.
Smith et al., A Jonathan Edwards Reader (New Haven: Yale University
Press, 1995); Stephen Stein, ed., Jonathan Edwards’ Writings: Text,
Context, Interpretation (Bloomington: Indiana University Press,
1996); Michael J. McClymond, Encounters With God: An Approach to the
Theology of Jonathan Edwards (Oxford University Press, 1997).
7 "The Earliest
Known Letter of Jonathan Edwards," Christian History 4:4, 34.
Minha tradução. A carta também
menciona as últimas mortes que ocorreram na cidade e dá informações
sobre a saúde dos membros da família, inclusive a sua própria dor de
dente.
8 Elisabeth S.
Dodds, "My Dear Companion," Church History 4:4, 15-17.
George Whitefield narra em seu
diário a profunda impressão que a vida familiar dos Edwards lhe
causou e como isso o levou a renovar suas orações por uma boa esposa
para si mesmo.
(George Whitefield’s Journals [Londres: Banner of Truth, 1960],
476-77, citado em Edwin S. Gaustad, ed., A Documentary History of
Religion in America: To the Civil War, 2ª ed.
[Grand Rapids: Eerdmans, 1993],
196).
9 Dodds, "My Dear Companion,"
16.
10 O reavivamento ocorreu quando
Edwards pregou uma série de sermões sobre a justificação pela fé.
11 Sobre o avivamento entre os
presbiterianos, ver o artigo do Rev. Frans Leonard Schalkwijk,
"Aprendendo da História dos Avivamentos," em Fides Reformata 2:2,
61-68.
12 Christian
History 4:4, pág. 4. Minha tradução.
13 Mark A. Noll classifica os
escritos de Edwards em teológicos, psicológicos, metafísicos e
éticos.
"Edwards, Jonathan," em Walter Elwell, ed., Evangelical Dictionary
of Theology (Grand Rapids: Baker, 1984), 343-46.
14 A primeira resolução afirma:
"Resolvo que farei tudo aquilo que mais contribua para a glória de
Deus e para o meu próprio bem, proveito e prazer, durante toda a
minha existência..., assim como para o bem e o benefício da
humanidade em geral." A de nº 42 declara: "Resolvo renovar
freqüentemente a minha consagração a Deus que foi feita em meu
batismo, a qual solenemente renovei quando fui recebido à comunhão
da igreja, e solenemente confirmo neste dia 12 de janeiro de 1723."
15 Marcas Distintivas de uma
Obra do Espírito de Deus resultou de um sermão pregado por Edwards
em uma formatura de Yale, em setembro de 1741. A essência dos seus
argumentos foi desenvolvida em Alguns Pensamentos Acerca do Presente
Reavivamento.
16 Como na maioria dos casos,
esse título é apenas uma abreviação do enorme título original: "Uma
cuidadosa e estrita investigação das modernas noções predominantes
acerca daquela liberdade da vontade que se supõe ser essencial para
a agência moral, virtude e vício, recompensa e punição, aplauso e
repreensão."
17 Esse tratado foi escrito para
contestar não somente o argumento arminiano acerca do livre
arbítrio, mas também o determinismo anti-evangelístico do
hiper-calvinismo.
18 O Fim para o Qual Deus Criou
o Mundo e A Natureza da Verdadeira Virtude (escritos em 1753-54) não
devem ser vistos como tratados separados, mas como obras
complementares: o fim para o qual Deus criou o mundo deve ser o
objetivo de uma vida verdadeiramente virtuosa e santa.
Mattos, "Jonathan
Edwards and the Criteria for Evaluating the Genuineness of the
‘Brazilian Revival’," 124.
19 Uma das principais edições
das obras de Jonathan Edwards é The Works of Jonathan Edwards, 2
vols. (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1990 [1960]). A editora
da Universidade de Yale também está publicando as obras completas de
Edwards desde 1957. Os volumes lançados até agora são os seguintes:
1. A Liberdade da Vontade (1957); 2. As Afeições Religiosas (1959);
3. O Pecado Original (1970); 4. O Grande Despertamento (1972); 5.
Escritos Apocalípticos (1977); 6. Escritos Científicos e Filosóficos
(1980); 7. A Vida de David Brainerd (1985); 8. Escritos Éticos
(1989); 9. História da Obra da Redenção (1989); 10. Sermões:
1720-1723 (1992); 11. Escritos Tipológicos (1993); 12. Escritos
Eclesiásticos (1993); 13. Miscelâneas (1994); 14. Sermões e
Discursos: 1723-1727 (1996); 15. Escritos Bíblicos (1997); 16.
Cartas e Escritos Pessoais (1997).
Outra obra
significativa é: Alexander B. Grosart, ed., Selections from the
Unpublished Writings of Jonathan Edwards, reimpressão (Ligonier:
Soli Deo Gloria Publications, 1992 [1865]).
20 J. Stephen Land
e Mark A. Noll, "Colonial New England: An Old Order, a New
Awakening," Church History 4:4, pág. 9.
21 Ibid. Todavia, é importante
ressaltar que os principais pregadores do Grande Despertamento, o
inglês George Whitefield e o próprio Jonathan Edwards, eram
calvinistas ortodoxos que davam às suas mensagens um teor
intensamente bíblico, doutrinário e fervoroso, sem apelar ao
emocionalismo.
22 Essas acusações tornaram-se
mais plausíveis quando, após a famosa campanha evangelística de
Whitefield em 1739-40, surgiram imitadores extremados que utilizavam
técnicas manipulativas com os seus auditórios.
23 Noll, "Edwards,
Jonathan," 345.
24 Dodds, "My Dear
Companion," 17.
25 The Works of
Jonathan Edwards, Vol. 2: Treatise Concerning Religious Affections,
ed. J.E. Smith (New Haven: Yale University Press, 1959), 102. Minha
tradução.
26 George M.
Marsden, "Jonathan Edwards Speaks to our Technological Age," Church
History 4:4, pág. 27.
27 D.M. Lloyd-Jones, Jonathan
Edwards e a Crucial Importância de Avivamento (São Paulo:
Publicações Evangélicas Selecionadas, s/d), 5. Em particular, ele
opina que o elemento do Espírito Santo é mais proeminente em Edwards
do que em qualquer outro puritano.
Ibid., 4.
28 The Works of
Jonathan Edwards, 2 vols. (Edimburgo: Banner of Truth, 1990), I:47.
29 Lloyd-Jones,
Jonathan Edwards, 14.
30 Marsden,
"Jonathan Edwards Speaks," 27.
31 Ibid., 27-28
32 Works of
Jonathan Edwards, II:14.
Edwin S. Gaustad transcreve as principais partes desse sermão em A
Documentary History, 214-220 (o trecho acima está na p. 216).
33 Marsden,
"Jonathan Edwards Speaks," 28.
34 John H. Leith,
An Introduction to the Reformed Tradition, ed. rev. (Atlanta: John
Knox, 1981), 120.
35 John T. McNeill,
The History and Character of Calvinism (Londres: Oxford University
Press, 1954), 363.
36 Noll, "Edwards,
Jonathan," 344.
37 Ibid., 345.
38 Ibid., 346.
39 Mattos, "Jonathan Edwards,"
98. Minha tradução.
40 Ibid., 122. Minha tradução.
41 Ibid., 151.
Minha tradução.
42 Warfield,
"Edwards and the New England Theology."
43 Lloyd-Jones,
Jonathan Edwards, 13.
44 Ibid., 20-21.
Fonte:
http://www.thirdmill.org/portuguese
/ Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela
Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana
do Brasil.
Resoluções De Jonathan Edwards
Como era comum aos jovens da sua
época, Jonathan Edwards escreveu uma lista de resoluções,
comprometendo-se a viver uma vida TEOCÊNTRICA em harmonia com
os outros. Esta lista, resumida neste artigo, foi escrita
provavelmente no ano de 1722 e foi crescendo ao longo dos anos,
quando novas resoluções eram acrescentadas. A lista tem um total de
70 resoluções. Os trechos resumidos abaixo dão o exemplo da
seriedade e firmeza com as quais Jonathan Edwards encarava a vida.
Estando ciente de que sou incapaz
de fazer qualquer coisa sem a ajuda de Deus; humildemente Lhe rogo
que, através de sua graça, me capacite a cumprir fielmente estas
resoluções, enquanto elas estiverem dentro da sua vontade, em nome
de Jesus Cristo.
RESOLVI que farei tudo aquilo que
seja para a maior glória de Deus e para o meu próprio bem, proveito
e agrado, durante toda a minha vida.
RESOLVI que farei tudo o que
sentir ser o meu dever e que traga benefícios para a humanidade em
geral, não importando quantas ou quão grandes sejam as dificuldades
que venha a enfrentar.
RESOLVI jamais desperdiçar um só
momento do meu tempo; pelo contrário, sempre buscarei formas de
torná-lo o mais proveitoso possível.
RESOLVI jamais fazer alguma coisa
que eu não faria, se soubesse que estava vivendo a última hora da
minha vida.
RESOLVI jamais cansar de procurar
pessoas que precisem do meu apoio e da minha caridade.
RESOLVI jamais fazer alguma coisa
por vingança.
RESOLVI manter vigilância
constante sobre a minha alimentação e aquilo que bebo, para ser
sempre comedido.
RESOLVI jamais fazer alguma coisa
que, se visse outra pessoa fazendo, achasse motivo justo para
repreendê-la ou menosprezá-la.
RESOLVI estudar as Escrituras tão
firme, constante e freqüentemente, que possa perceber com clareza
que estou crescendo continuamente no conhecimento da Palavra.
RESOLVI esforçar-me ao máximo
para que a cada semana eu cresça na vida espiritual e no exercício
da graça, além do nível em que estava na semana anterior.
RESOLVI que me perguntarei ao
final de cada dia, semana, mês, ano, como e onde eu poderia ter
agido melhor.
RESOLVI renovar freqüentemente a
dedicação da minha vida a Deus que foi feita no meu batismo e que eu
refaço solenemente neste dia.
RESOLVI, a partir deste momento e
até à minha morte, jamais agir como se a minha vida me pertencesse,
mas como sendo total e inteiramente de Deus.
RESOLVI que agirei da maneira
que, suponho, eu mesmo julgarei ter sido a melhor e a mais prudente,
quando estiver na vida futura.
RESOLVI jamais relaxar ou
desistir, de qualquer maneira, na minha luta contra as minhas
próprias fraquezas e corrupções, mesmo quando eu não veja sucesso
nas minhas tentativas.
RESOLVI sempre refletir e me
perguntar, depois da adversidade e das aflições, no que fui
aperfeiçoado ou melhorado através das dificuldades; que benefícios
me vieram através delas e o que poderia ter acontecido comigo, caso
tivesse agido de outra maneira.
Apesar da sua biografia
apresentar contrastes dramáticos, estas são, na realidade, apenas
algumas facetas diferentes de uma afinidade com um Deus SOBERANO.
Assim, Jonathan Edwards tanto pregava sermões vívidos sobre o fogo
do inferno, quanto se expressava em poesia e de forma lírica em suas
apreciações sobre a natureza, pois o Deus que criou o mundo em toda
a sua beleza, também é perfeito em sua santidade. Edwards combinava
o exercício mental e intelectual de um gigante com piedade quase
infantil, pois ele percebia Deus tanto como infinitamente complexo
quanto como maravilhosamente simples. Na sua igreja em Northampton,
sua consistente exaltação da Majestade Divina gerou muitas reações
diferentes — primeiro ele foi exaltado como grande líder e, em
seguida, foi demitido do seu púlpito. Edwards sustentava a doutrina
de que o Deus onipotente exigia arrependimento e fé das suas
criaturas humanas; por isso, ele proclamava tanto a absoluta
soberania de Deus quanto as urgentes responsabilidades dos homens.
"Jesus... tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao
fim." (João 13.1) |